terça-feira, 26 de junho de 2007

Uma sociedade doente

triste, muito triste
As cenas já são conhecidas: a jovem -isso mesmo, jovem, pois ela só tem 28 anos- saiu do trabalho (a casa de família aonde exerce seu ofício de doméstica, resquício indelével da antiga (?) escravidão) um pouco antes das 5 h da manhã de domingo para ir ao médico. Chegou em um ponto de ônibus, onde esperava o coletivo e onde estavam outras duas mulheres também aguardando condução. Na mesma hora cinco jovens de classe média alta, quatro deles estudantes universitários e um técnico com formação de segundo grau saiam de uma boate aonde certamente se divertiram, beberam, namoraram, como é usual nesta faixa etária e e social. Até ai tudo bem. O problema é que estas duas realidades se encontraram: as mulheres no ponto de ônibus e os jovens no carro que um deles ganhou dois dias atrás. O resultado desse encontro também já é conhecido. Qual uma tropa de choque da SS os jovens investiram contra a jovem que esperava o ônibus para ir ao médico: tomaram sua bolsa e começaram uma sessão de agressões. Chutes, socos e cotoveladas especialmente em seu rosto. Quatro jovens fortes contra uma jovem. O quinto espereva no carro, provavelmente ligado para qualquer emergência. Para não perderem a viagem agrediram também as outras duas mulheres que lá estavam. Ponto final em mais um caso de agressão injustificável no Rio de Janeiro, não fosse um taxista ter anotado placa do veículo condutor da Blitzen. O resto também já se sabe. A jovem teve que ir ao hospital com o rosto e os braços cobertos de hematomas e com suspeitas de ruptura de ossos na face e os jovens foram pouco a pouco presos pela polícia através da placa do carro repassada pelo motorista de táxi. Candidamente eles, os jovens, disseram que confundiram a jovem com uma prostituta. Ah bom! Sintomático tanto pelo lado psicanalístico - eles agridem prostituras por qual motivo: desejo recalcado ou impotência em arrumar namoradas ou namorados?; quanto pelo lado policial - eles agridem prostitutas ou foi a primeira vez? E as reações? Até agora as reações vieram da mídia que fez um boa cobertura já no domingo à noite (Fantástico) e na segunda nos principais jornais do país. A polícia agiu rápido e prendeu os cinco, sendo o último na noite de segunda. A OAB pediu uma punição rigorosa. E os pais? Ah os pais. Claro que não dá para generalizar, pois apenas um veio a público defender abertamente os filhos, dizendo: "quero dizer à sociedade que nós, pais, não temos culpa disso. Eles cometeram um erro? Cometerem. Mas não vai ser justo mantermos CRIANÇAS (grifo meu) que estudam, estão na faculdade, trabalham, presas. Botar( sic) eles numa Polinter? Desnecessário." Aguardam-se outras manifestações. A bárbarie se manifesta de formas variadas. Nem se fala aqui da violência generalizada, da bala perdida, do assalto e do latrocínio. Fala-se da violência banalizada, sem motivos aparentes (que nunca justificam-a). Fala-se da covardia e da bestialidade. Fala-se de jovens pobres que mesmo, aparentemente, tendo visto que arrastavam uma criança de seis anos presa ao cinto de segurança do automóvel que acabaram de roubar, não tiveram coragem de parar e a arrastaram por mais de seis quilômetros, matando-a em um episódio horrendo. Fala-se desses cinco jovens ricos, que estudam, ganham carro, vão a boates, têm dinheiro e que transformam-se em carrascos cruéis e sanguinários. Fala-se disso tudo e teme-se que as reações sejam diferentes nestes dois casos. Quais as diferenças? Para onde caminharão os arautos do endurecimento penal, da pena de morte, e até mesmo os filófos do "olho por olho, dente por dente"? E as manifestações de indignação que percorreram o país? E os outdors em Belo Horizonte? Triste, muito triste; nossa sociedade está doente, muito doente. Esperam-se as reações. Ou as "CRIANÇAS" agora serão os agressores e as vítimas?

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